Com o preço do barril do petróleo a mais de US$ 80, a
Petrobras deixou para as suas clientes a tarefa de complementar com importação
o volume adicional à produção nacional necessário para atender a demanda
interna de combustíveis. Sem a tradicional ajuda estatal, as distribuidoras vão
por conta própria comprar produtos em outros países, afirmaram ao
Estadão/Broadcast executivos do segmento de distribuição em condição de
anonimato.
Esse custo excedente com importação vai ser repassado para o
consumidor final que, no fim das contas, deve pagar mais caro pelos
combustíveis nas bombas, ainda que a Petrobras não reajuste seus preços nas
refinarias. A alta foi estimada em 17% pela Associação das Distribuidoras de
Combustíveis (Brasilcom). Essa é a diferença média entre os preços dos produtos
brasileiros e os importados.
Os executivos das distribuidoras garantem que não há risco de
desabastecimento. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
(ANP) também diz que não. O complemento à Petrobras será garantido por outros
países. Na verdade, o Brasil sempre contou com os importados para suprir toda
demanda. A mudança, agora, é que, em vez de a estatal liderar essa importação,
como fez até então, as distribuidoras vão tomar à frente do processo, no mês
que vem, e arcar elas próprias com os custos extras, no mês que vem.
“A Petrobras está entregando os volumes contratados. O que
ela não está garantindo são os volumes adicionais. E esse é um direito dela”,
disse uma das fontes.
Refinaria
Na avaliação de executivos do mercado, a Petrobras preferiu
repassar a responsabilidade da importação às distribuidoras Foto: Geraldo
Falcão/Petrobrás
Uma parcela do mercado compreende que a Petrobras não tem
motivo para assumir o ônus de recorrer ao mercado internacional, a não ser que
reajuste seus preços. Como o momento econômico e político não é propício para
isso, a empresa preferiu repassar a responsabilidade da importação às
distribuidoras, segundo as fontes. Necessariamente, será preciso recorrer ao
mercado externo. Caso contrário, as distribuidoras teriam que pagar multas aos
donos de postos por não cumprirem com o compromisso de abastecimento.
Mas a notícia não foi bem recebida por associadas da
Brasilcom, que levaram o caso à ANP. Elas reclamam de cortes unilaterais de até
70% nos pedidos de fornecimento de combustíveis, comunicados na semana passada
pelo setor comercial da Petrobras.
A defasagem entre a disponibilidade interna de combustíveis e
demanda diz respeito aos contratos com entrega prevista para o mês que vem. No
mundo todo, o mercado de petróleo e derivados está aquecido. Num só momento, o
consumo subiu, por conta do avanço da vacinação e recuperação das economias. Ao
mesmo tempo, a oferta caiu. A consequência foi a disparada das cotações das commodities
de energia, com reflexos no Brasil que adota preços alinhados aos
internacionais.
A Petrobras, em comunicado, afirma que as distribuidoras
encomendaram mais combustíveis para o mês de novembro do que de costume e que
não teve tempo de se preparar para esse aumento da demanda. Segundo a
Petrobras, comparado com novembro de 2019, a demanda por diesel aumentou 20% e
a de gasolina, 10%. Esses excedentes superam sua capacidade interna de
produção. No mercado, no entanto, executivos de distribuição negam essa versão.
Eles dizem que o consumo subiu, mas nem tanto.
“A Petrobras segue atendendo os contratos com as
distribuidoras, de acordo com os termos, prazos vigentes e sua capacidade. Além
disso, a Companhia está maximizando sua produção e entregas, operando com
elevada utilização de suas refinarias”, afirmou a empresa, em nota,
acrescentando que o seu parque de refino está operando com um nível de
utilização elevado.
Os importadores viram nesse episódio uma oportunidade de
crescer no mercado interno. “Ao reduzir a importação, a Petrobras
institucionaliza o mercado livre de combustíveis no Brasil”, afirmou Sérgio
Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis
(Abicom). Em geral, a entidade critica a estatal. A luta da Abicom, em geral, é
para que a Petrobras suba os seus preços, em linha com o mercado internacional,
e, com isso, permita que concorrentes disputem participação de mercado. Dessa
vez, no entanto, a associação aplaudiu a petrolífera.
Fonte: Estadão
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