Com o governo bombardeado por denúncias de irregularidades,
envolvendo, principalmente, as compras de vacinas contra a covid-19, o presidente
Jair Bolsonaro admitiu nesta segunda-feira, 27, que a corrupção não acabou em
seu governo. “Eliminou-se a corrupção? Obviamente que não. Podem acontecer
problemas em alguns ministérios? Podem, mas não será da vontade nossa”, afirmou
o presidente durante evento da Caixa Econômica Federal que marca o início das
celebrações dos mil dias de mandato.
A declaração destoa do que afirmou o próprio Bolsonaro na
abertura da 76ª Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU), na última
terça-feira. Na ocasião, em discurso acompanhado por líderes mundiais, o chefe
do Executivo chegou a dizer que o Brasil estava há dois anos e oito meses “sem
qualquer caso concreto de corrupção” – o que, aliás, o Estadão demonstrou estar
entre várias mentiras e alegações falsas do presidente na fala em Nova York.
“Nós vamos buscar maneiras de, obviamente, apurar o caso (de
corrupção) e tomar providências cabíveis com outros poderes sobre aquele
possível ato irregular. Mas diminuiu muito a corrupção no Brasil, muito”,
declarou Bolsonaro nesta segunda-feira.
Há ao menos dois casos de suspeita de corrupção em
investigação no governo federal. Em maio, a PF cumpriu mandados de busca e
apreensão que envolveram o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o
presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, e a cúpula do órgão ambiental por
suspeitas de corrupção e favorecimento no contrabando de produtos ambientais. A
suspeita é que os agentes públicos atuaram de forma a fragilizar a fiscalização
e para permitir contrabando de madeira extraída de forma ilegal.
O Ministério Público Federal e a PF também investigam
suspeitas de corrupção no contrato do Ministério da Saúde para comprar a vacina
indiana Covaxin, com intermediação da empresa Precisa Medicamentos. O País
pagaria US$ 1,6 bilhão por 20 milhões de doses – US$ 15 por unidade, o maior
valor entre todas as vacinas. A Covaxin nem sequer tem autorização da Anvisa
para aplicação. O contrato foi suspenso pelo próprio governo após a revelação
das suspeitas de corrupção.
A PF abriu inquérito em julho para saber se o presidente
cometeu prevaricação – quando um agente público deixa de cumprir com suas
obrigações – após ser informado de suspeitas envolvendo o contrato pelo
deputado Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, Luis Ricardo, funcionário do
Ministério da Saúde. Na ocasião, segundo o parlamentar, o presidente disse que
iria pedir uma investigação sobre o caso, mas não levou a denúncia aos órgãos
de investigação.
“As pressões no passado eram enormes, em governos anteriores.
Hoje existem (pressões)? Existem, mas bem menores”, acrescentou, dizendo,
ainda, em tom positivo, que há hoje um ministério “cada vez mais casando com o
Legislativo”. O presidente não esclareceu, contudo, a qual pasta se referia e
também ignorou as dificuldades do Executivo na articulação com o Congresso.
A bandeira do combate à corrupção foi um dos pilares da
campanha do atual presidente nas eleições de 2018. Em seu primeiro discurso na
ONU após ser eleito, em 2019, Bolsonaro chegou a citar que a presença do
ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro, seu então ministro da Justiça, era a garantia
de que seu governo priorizaria o tema. Moro, porém, foi demitido e acusou o
presidente de tentar influenciar na Polícia Federal para favorecer seus filhos.
Forças Armadas
Em seu discurso, nesta segunda-feira, o presidente também
destacou que as Forças Armadas não cumpririam ordens absurdas. “Se eu der
ordens absurdas, vão cumprir? Não. Nem a mim, nem a governo nenhum. As Forças
Armadas têm de ser tratadas com respeito”, disse o chefe do Executivo.
O presidente não citou nenhum fato específico da atuação dos
militares em seu governo, mas já foi acusado no tentar fazer uso político das
Forças Armadas, a exemplo do desfile de blindados que cruzou a capital federal
no mesmo dia em que a Câmara se preparava para votar (e rejeitar) a adoção do
voto impresso. A declaração de Bolsonaro nesta segunda remete a este e outros
episódios em que a disposição das Forças Armadas embarcarem numa eventual
ruptura democrática foi questionada. Como revelou o Estadão/Broadcast, ainda em
julho, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, mandou recado ao presidente da
Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), por meio de um interlocutor, de que não
haveria eleições em 2022 sem o voto impresso. A proposta acabou rejeitada em
agosto.
Ainda durante o discurso desta segunda-feira, Bolsonaro
voltou a dizer que não gostaria de ver a gasolina e o dólar nos níveis atuais,
mas ressaltou que não resolve tudo sozinho e que o cenário ainda pode piorar.
“Alguém acha que eu não queria gasolina a R$ 4 ou menos? O dólar a R$ 4,50 ou
menos? Não é maldade da nossa parte, é a realidade”, afirmou Bolsonaro. “Tem um
ditado que diz ‘nada está tão ruim que não possa piorar’. Não queremos isso.”
Passaporte da vacina
Bolsonaro voltou a questionar medidas como o passaporte da vacina
contra a covid-19 em seu discurso, apelou a uma retórica de defesa da liberdade
para criticar a exigência do imunizante e negou ser contrário à vacina. “Se
estivesse contra, não teria assinado a medida provisória de dezembro do ano
passado destinando R$ 20 bilhões para comprar vacina. Mas nós respeitamos a
liberdade. Por mais que me acusam de atos antidemocráticos, são apenas
acusações, ninguém mais do que eu respeita o direito de todos. A vacina não
pode ser obrigatória”, afirmou.
Durante a viagem para participar do evento da ONU na semana
passada, Bolsonaro foi o único líder nacional entre as 20 maiores economias do
mundo que não tomou a vacina contra covid-19 e quebrou a regra da organização
comparecendo presencialmente ao evento sem estar imunizado. O presidente também
protagonizou episódios como o em que a comitiva brasileira comeu pizza na
calçada e fez refeição na área externa de uma churrascaria para escapar do
passaporte vacinal de Nova York. Na cidade, a comprovação de vacinação é
obrigatória para a entrada em diversos estabelecimentos, como restaurantes.
O chefe do Planalto ainda citou os casos da ministra da
Agricultura, Tereza Cristina, do advogado-Geral da União, Bruno Bianco, e de
seu filho Eduardo Bolsonaro, que testaram positivo para covid-19 na última
semana, para reforçar o discurso que coloca em dúvida a importância e eficácia
das vacinas contra a doença. “Ainda é uma grande incógnita isso aí”, disse.
Brevemente, defendeu o uso de medicamentos, sem especificar
quais, para tratar a doença, ao mencionar o caso do ministro da Saúde, Marcelo
Queiroga, que contraiu covid-19 durante a viagem aos Estados Unidos em que
acompanhou o presidente. Desde 2020, Bolsonaro defende remédios sem eficácia
comprovada contra a covid-19, como a ivermectina e a hidroxicloroquina.
“Falei a ele [Queiroga] o seguinte: você vai seguir o
protocolo do Mandetta e esperar sentir falta de ar para procurar um médico ou
vai partir para um medicamento ou outro qualquer agora?”, afirmou.
Fonte: Estadão

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